Num sono que transcendeu minhas lembranças tua voz ecoava. Te tateei no escuro, avançando com cautela as curvas que teu rosto fazia e te senti sorrindo, igual aquele dia de domingo que a janela com um feixe de luz abria espaço no quarto pra iluminar aquela cena, uma iluminação turva me penetrava na boca entreaberta de meu sorriso ao te ver dormindo, e eu te lia com o coração de uma criança. Aquele foi o melhor tempo de abril, abriu entrecortante uma lembrança bonita que eu tenho de você, e eu tenho muitas, porque ainda mora no meu ouvido o teu sotaque e ainda sinto o sabor de minha ingenuidade, é que parece que quando te conheci minha carne se dilatou e eu fiquei maior, no movimento em C daquele abraço em ruas coloridas enfeitei teu afeto e você me trouxe novos sons, pra dançar sozinha em nossos desencontros e pra fazer correr no aeroporto tentando te achar. Tinhas um azul tão profundo que me fazia sentir o gosto do mar que nos separava, me acertava em cheio entre o pulmão e o estômago, e eu ia tirando em camadas, fio a fio, teus cabelos pra acertar tua boca mais uma vez, num eu te amo atropelado que nos encharcava os olhos, eu nunca vou esquecer quando em meus braços te vi chorar feito menino, e assim pra sempre tua lembrança será um sonho dentro de uma lembrança dentro de um sonho, você me deu o sonho, e enquanto tínhamos fôlego o vivemos, mas agora quando acordo estou nos braços de outro alguém.
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