Minha avó não sabe ler
mas aprendi a ler nos verbos dela
aprendi a soletrar carinho
cada palavra errada tinha um sabor diferente
de feijão gostoso, de dindin de biscoito, de panqueca e tapioca
ela nem sabia que levava a poesia nas mãos
ia tecendo fio a fio na sua máquina velha
tapetes coloridos pra enfeitar os pés
posso vê-la deitada sobre um sofá de fuxico
falando com a novela
E o seu jeito doido de atravessar a rua
de ter ciúmes
de se meter em briga
de criar teias complexas de amor
de ter uma saúde de ferro
mesmo com a osteoporose corroendo os ossos
Envolvida nas lembranças dos antigos namorados
dos vestidos, dos sapatos
do olhar azul lançado sobre ela na varanda de sua casa
Queria poder saber como foi pra ela pela primeira vez se sentir bonita
como foi que ela viu o lobisomem
como foi que ela criou numa casa de um quarto só minha mãe e meus três tios
como foi segurar nos braços sua primeira neta
Toda sua história embalada à uma cantiga antiga do sítio
lembrança de menina
que metia a mão na terra
e que fecundava sob o sol escaldante
uma poesia bruta, atropelada, de vocabulário mitológico
e que transbordava sob suor e lágrimas
o sentimento de seus melhores frutos
Por sua imaginação ilimitada eu tenho convicção que minha avó é uma artista
vó, como é envelhecer?
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