segunda-feira, 7 de março de 2016

Qual dor fica mais bonita na vitrine?

Ando tão seca
que qualquer escarro sobre minha pele
evaporaria instantaneamente
sugando todos os átomos líquidos
Ando tão vazia quanto um buraco negro que tudo quer engolir pra se tornar escuridão
inerte, amorfa.
Ando apodrecendo nas esquinas dessa casa suja
a poeira adentra meu olfato apenas pra me fazer espirrar
assim me movo, de um lado a outro da cama
Já tentei de tudo
drogas, religião, sexo, ler, terapia, acreditar nas pessoas
mas não preenche esse vazio que sinto
e me espanca tanto
que o corpo não lateja, já estou dormente
A única coisa que se aproxima de uma pretensa salvação é escrever
escrevo como uma amputada
como uma faminta
como uma esquizofrênica
como uma histérica
como uma pagã
como uma mulher
Se eu pudesse dizer todos os verbos que conheço, eu faria sentido?
Você me compraria se visse minha dor exposta numa vitrine?
eu nem sou tão bonita assim
nem tão feia
Você ainda me amaria se me visse chorar?
A dor que carrego pesa os ombros e os olhos
e por isso fecho os olhos pra não ver
pra não enxergar a minha impotência
a minha solidão
pra não sincronizar com as dores alheias
os deixo morrer nas esquinas dessa cidade feia
enquanto me consumo em silêncios que devoram meus órgãos e minha vitalidade
nas esquinas desse quarto emaranhado
há três semanas não troco os lençóis.


4 comentários:

  1. Então tá. Já que vc gosta de escrever talvez eu possa dar alguma contribuição nisso.

    1)Escrever exige leitura para que o texto ganhe força. Como? Ao ler você vê outrxs autorxs tendo que encontrar formas para resolver os problemas que encontram para por-se no papel. Assim pode herdar a experiência expressiva de de até 29 séculos de escrita.

    2)Um poema não precisa ser em verso. Vejo muitos bons poemas que são estranhamente cortados pelo enter em momentos que parecem nem ter a ver com a rima, nem com a conclusão de uma ideia e nem com alguma sintaxe. Parecem apenas precisar de uma divisão em versos que os provem como poemas. Este é outro problema da não leitura. Walt Whitman, Fernando Pessoa e Rimbaud há algum tempo já acabaram com a necessidade de versificação, rima e métrica rígida para distinguir um poema de uma narrativa.

    Se desesperar mesmo por escrever espero ver uma escrita cada vez mais original e criativa. Recomendo a leitura de Caio Fernando Abreu, Fernando Pessoa e as Cartas à um jovem poeta de Rilke.

    Ps.: Para ler o seu texto com mais fluência eu tomei a liberdade de distribui-lo desta forma.

    Ando tão seca que qualquer escarro sobre minha pele evaporaria instantaneamente sugando todos os átomos líquidos. Ando tão vazia quanto um buraco negro que tudo quer engolir pra se tornar escuridão inerte, amorfa. Ando apodrecendo nas esquinas dessa casa suja. A poeira adentra meu olfato apenas pra me fazer espirrar. Assim me movo, de um lado a outro da cama. Já tentei de tudo: Drogas, religião, sexo, ler, terapia, acreditar nas pessoas, mas não preenche esse vazio que sinto e me espanca tanto que o corpo não lateja. Já estou dormente. A única coisa que se aproxima de uma pretensa salvação é escrever. Escrevo como uma amputada, como uma faminta, como uma esquizofrênica, como uma histérica, como uma pagã, como uma mulher. Se eu pudesse dizer todos os verbos que conheço, eu faria sentido? Você me compraria se visse minha dor exposta numa vitrine? Eu nem sou tão bonita assim, nem tão feia. Você ainda me amaria se me visse chorar? A dor que carrego pesa os ombros e os olhos e por isso fecho os olhos pra não ver, pra não enxergar a minha impotência, a minha solidão, pra não sincronizar com as dores alheias os deixo morrer nas esquinas dessa cidade feia enquanto me consumo em silêncios que devoram meus órgãos e minha vitalidade nas esquinas desse quarto emaranhado. Há três semanas não troco os lençóis.

    ResponderExcluir
  2. Obrigada pelas críticas, acho que elas sempre nos ajudam a melhorar, desde que não sejam pejorativas, o que não foi o caso, eu sempre recebo de bom grado e reflito sobre elas. Eu realmente tenho problemas com relação ao formato que dou aos textos, não sigo métrica e nem tenho a urgência de que tudo seja rimado, eu não concebo assim, mas é evidente que eu preciso construir melhor o que escrevo, talvez tenha que me desfazer de uma necessidade de tentar colocar em versos, muitas vezes eu percebo que há algo que não está devidamente encaixado e deve ser, em várias ocasiões, justamente pelo o que você colocou em questão. Eu deveria ler mais, definitivamente, apesar de não ter lido todas as obras, mas todos os autores citados eu conheço e já li, com exceção do Whitman. Inclusive gosto muito do Rimbaud e do Caio Fernando de Abreu, às vezes, penso eu, que não seja uma questão apenas de leitura, mas de maturar o próprio texto, entender realmente como quero construí-lo, pra poder dar uma sonoridade e fluidez necessária, preciso dar mais atenção a esse quesito, revisar e não ir soltando tudo ao vento. Obrigada.

    ResponderExcluir
  3. Verso tem a ver com fluidez, sinto. Se te apetece, se é assim que a palavra vem a você, como em espécie de sonho (talvez), deixe que ela flua como desejar. Todos os poemas podem ser condensados em prosas e todas as prosas dichavadas em versos. Quem escolhe o sabor e a textura da linguagem é quem a diz. Abraços e... você expele bem as sensações pelos poros, como cheiros. Busque isso, continue na busca, persiga o cheiro das palavras, vá atrás do seu balanço. Pratique como quem goza.
    Z.

    ResponderExcluir
  4. Rauul, nunca imaginaria que me lerias, que surpresa massa! Agradeço teu sopro de liberdade e o incentivo à minha autoexpressão da maneira que ela quiser ser, e ela é, simplesmente, sem meu controle. Continuarei atrás do meu balanço, porque isso me move, isso é o que faz sentido na pele pra mim, escrevo antes de tudo pra me curar. Siga por perto, um xerim em tu. Orgasmos múltiplos.

    ResponderExcluir