deixo azedar
como comida velha mofando na pia
o que é ausência
deixo ter um consolo
como quando ligo a televisão pra fingir ter gente comigo
o que permanece e o que corrói com o tempo?
a minha solidão.
a cólera que o tempo me trouxe foi a certeza de um câncer
que se deforma na pele e que perfura o estômago
vômitos embrulhados, abortados
de quando o mundo me parecia assimetricamente belo e perigoso
e eu dizia que valia a pena se arriscar
porque a coisa que mais me dava medo era estar só
vale o risco, eu dizia, o peso, e me debruçava sobre corpos vazios
eu achava que a solidão não era um amigo
mas sempre que abria a porta era seu rosto que eu via
a solidão envelheceu comigo
enrugou
murchou
envergou e pendeu pro outro lado da cama.
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